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Definições compartilhadas: o documento que faz os números baterem

Marketing apresenta um número, vendas apresenta outro menor, e a hora seguinte é gasta descobrindo por quê. A causa quase nunca é cálculo — é que ninguém escreveu a definição.

Cleber Barbosa
13 min de leitura
2.521 palavras
Definições compartilhadas: o documento que faz os números baterem — capa do artigo
Capa: MarketingABM

Existe uma reunião que se repete em toda operação B2B: marketing apresenta o número de oportunidades geradas, vendas apresenta um número menor, e a hora seguinte é gasta descobrindo por que os dois não batem.

A explicação quase nunca é erro de cálculo. É que as duas áreas estão contando coisas diferentes com o mesmo nome — e ninguém escreveu qual é a definição.

Este artigo é sobre o documento de uma página que resolve isso, e sobre por que ele é mais difícil de escrever do que parece.

Onde as definições divergem

Cinco termos concentram a maior parte dos desencontros.

Oportunidade. Para marketing, costuma ser um contato que atingiu um critério de qualificação. Para vendas, é um negócio com interlocutor confirmado e interesse real. A diferença entre os dois números é a fonte clássica de conflito.

Conta trabalhada. Marketing conta contas alcançadas por campanha. Vendas conta contas em que houve tentativa de contato. Pode dar diferença de três vezes.

Origem. Se um contato veio de conteúdo, foi trabalhado por prospecção e fechou, de quem foi? Sem regra escrita, cada relatório atribui de um jeito.

Perdido. Vendas marca como perdido quando o prospect diz não. Marketing frequentemente considera que a oportunidade ainda existe porque o contato continua na base. Os dois têm razão dentro da própria lógica.

Ciclo de vendas. Conta desde o primeiro contato ou desde a primeira reunião? A diferença muda o número em meses.

Uma sexta divergência que merece nota, porque é a mais silenciosa: o que conta como "contato". Se marketing considera contato o envio de um e-mail e vendas considera contato uma conversa efetiva, o relatório de cobertura de contas fica inflado sem que ninguém perceba — e decisões sobre quais contas já foram trabalhadas passam a se apoiar em algo que não aconteceu.

A definição que resolve exige resposta, não envio: houve retorno registrado, de qualquer tipo. É mais restritiva, produz um número menor, e é o número que descreve a realidade.

O teste de duas perguntas

Pergunte separadamente ao responsável por marketing e ao responsável comercial: quantas oportunidades tivemos no último trimestre, e o que conta como oportunidade? Se os números divergirem em mais de 20%, ou se as definições soarem diferentes, o documento não existe.

Por que isso custa mais do que parece

A divergência não é só desconforto de reunião. Ela produz três efeitos concretos.

Decisão de orçamento em cima de número errado. Se marketing reporta um volume que vendas não reconhece, o investimento é dimensionado sobre uma base que não corresponde ao pipeline real.

Erosão de confiança entre as áreas. Quando os números nunca batem, cada lado passa a assumir que o outro está inflando. Isso contamina discussões que nada têm a ver com métrica.

Impossibilidade de melhorar. Não dá para otimizar uma taxa de conversão cujo numerador e denominador são contados de formas diferentes. A operação fica sem instrumento.

O documento que resolve

Cabe em uma página. O que ele precisa ter:

Uma definição por termo, com critério verificável

Não "oportunidade é um contato qualificado". Isso empurra a ambiguidade para a palavra "qualificado".

O que funciona é um critério que pode ser checado sem julgamento: "oportunidade é um registro no CRM com empresa identificada, ao menos um contato com cargo mapeado, e uma interação registrada nos últimos trinta dias".

O teste: duas pessoas olhando o mesmo registro chegariam à mesma classificação? Se não, a definição ainda está vaga.

Onde o dado mora

Para cada métrica, qual campo do CRM é a fonte oficial. Isso elimina a situação em que marketing conta por um relatório e vendas por outro, ambos válidos e divergentes.

Quem preenche e quando

Uma definição que depende de um campo que ninguém preenche não existe na prática. Se o motivo de perda é obrigatório, precisa estar claro quem preenche e em que momento.

A regra de atribuição de origem

Uma decisão, escrita: primeiro toque, último toque, ou registro de todos. Qualquer uma serve — o que não serve é não haver regra.

Para operação pequena, a recomendação prática é registrar todos os toques e reportar pelo primeiro. O primeiro toque é o que mais depende de investimento em criação de demanda, que é justamente o que costuma ser cortado por não aparecer.

O que é fora do perfil

A definição de quem você não atende, com critérios objetivos. Sem isso, marketing entrega contatos que vendas descarta, e a discussão vira opinião sobre qualidade.

As cinco definições, escritas

Vale mostrar como fica na prática, porque "critério verificável" é fácil de dizer e difícil de escrever. Os exemplos abaixo são de uma operação B2B de ticket alto e ciclo longo — as suas serão diferentes, mas o formato serve.

Conta no perfil

Empresa com CNAE dentro da lista definida, porte acima do mínimo estabelecido, situação cadastral ativa, e sede em uma das regiões atendidas.

Quatro critérios objetivos, todos checáveis em fonte pública. Ninguém precisa julgar se "faz sentido".

Oportunidade

Registro no CRM com conta identificada por CNPJ, ao menos um contato com cargo preenchido, e uma interação registrada nos últimos trinta dias — não uma abertura de e-mail, mas resposta, download ou visita a página de fundo de funil.

A ressalva sobre abertura de e-mail está ali de propósito: proteções de privacidade em clientes de e-mail disparam a contagem sem que ninguém tenha lido, e uma definição que aceita abertura como interação infla o número sozinha.

Oportunidade aceita por vendas

Oportunidade em que houve tentativa de contato registrada dentro do prazo acordado e que não foi devolvida com motivo.

A diferença entre este número e o anterior é exatamente a taxa de aceite — e ela é o indicador mais honesto da qualidade da entrega de marketing.

Negócio perdido

Oportunidade com motivo de perda preenchido em lista fechada, ou sem interação registrada há mais de noventa dias.

A segunda condição existe porque a maior parte das perdas em B2B não é um "não" explícito — é silêncio. Sem um critério de tempo, o pipeline acumula negócios mortos que inflam a previsão.

Ciclo de vendas

Dias entre a data de criação da oportunidade e a data de fechamento, ganho ou perdido.

Contar apenas os ganhos produz um número mais bonito e menos útil, porque exclui justamente os negócios que se arrastaram.

O acordo operacional, que é a parte difícil

Definições resolvem a contagem. Falta a parte que gera mais atrito: quem faz o quê, em que prazo.

Quatro compromissos que valem estar escritos:

Volume que marketing entrega. Quantas oportunidades por período, no critério acordado.

Prazo de contato. Em quanto tempo vendas aborda uma oportunidade recebida. É o compromisso mais consequente e o menos cumprido.

Número de tentativas antes de descartar. Sem isso, uma oportunidade descartada depois de uma ligação sem resposta vira estatística de "lead ruim".

Devolução com motivo. Vendas pode recusar uma oportunidade, e precisa registrar por quê, em lista fechada. É o mecanismo que permite a marketing corrigir.

Esse último fecha o circuito. Sem devolução estruturada, marketing continua entregando o que vendas descarta, indefinidamente.

Como escrever sem virar negociação

A tentativa de escrever esse documento costuma travar porque vira uma discussão sobre metas disfarçada de discussão sobre definições.

Três coisas ajudam:

Comece pelos dados, não pelas opiniões. Extraia do CRM o que aconteceu nos últimos doze meses com os critérios de cada lado, e mostre os dois números lado a lado. Isso desloca a conversa de "quem está certo" para "por que os números diferem".

Separe definição de meta. Definir o que conta como oportunidade não é definir quantas precisam ser entregues. Misturar as duas transforma um exercício de clareza em uma negociação, e a definição sai enviesada para servir à meta.

Escreva na mesma sala. Documento redigido por uma área e enviado para aprovação da outra não é adotado. Meio dia com as duas partes redigindo ao vivo resolve o que semanas de troca de versão não resolvem.

O conflito que a definição não resolve

Vale ser honesto sobre o limite do documento, porque ele é frequentemente apresentado como solução para algo que é estrutural.

Marketing e vendas divergem porque são medidos por coisas diferentes. Marketing responde por volume e custo; vendas responde por receita fechada. Um mês em que marketing entrega muito e vendas fecha pouco é bom para um indicador e ruim para o outro — e nenhuma definição compartilhada muda isso.

O que a definição resolve

Ela remove a discussão factual: quantos foram, o que conta, de onde vieram. Isso é metade do atrito e é a metade que consome mais tempo de reunião sem produzir nada.

O que continua

A discussão sobre prioridade. Vale mais entregar cinquenta oportunidades de qualidade média ou vinte de qualidade alta? Depende da capacidade comercial, do ticket, do momento — e é uma decisão de estratégia que precisa ser tomada, não definida.

A única coisa que resolve de verdade

Indicador compartilhado. Enquanto marketing for medido por volume e vendas por receita, o incentivo empurra em direções diferentes por construção.

A alternativa é medir as duas áreas pelo mesmo número — pipeline qualificado gerado, ou receita, ou avanço de contas-alvo. Isso não elimina divergência de opinião, e elimina a divergência de interesse.

É uma decisão de liderança, não de processo. Mas vale registrar, porque times gastam meses aperfeiçoando definições quando o problema real é que estão sendo pagos para otimizar coisas diferentes.

O que faz o acordo sobreviver

A maior parte desses documentos é escrita, comemorada e esquecida em três meses. O que mantém vivo:

Uma revisão mensal curta. Trinta minutos olhando se os números bateram e o que causou divergência. Não é reunião de cobrança — é manutenção do instrumento.

Registro das devoluções. Se vendas devolveu oportunidades, com quais motivos, e se há padrão. Um motivo dominante indica que a definição precisa de ajuste.

Revisão semestral da definição. Mercado muda, produto muda, perfil de cliente muda. Uma definição de dois anos atrás pode estar descrevendo um negócio que não existe mais.

Um dono. Alguém responsável por manter o documento e arbitrar dúvida. Sem isso, cada divergência vira uma discussão do zero.

Os erros que anulam o documento

Definir para agradar os dois lados. Uma definição negociada para que os números de cada área continuem parecendo bons não descreve nada. O objetivo é ter um número verdadeiro, mesmo que ele seja menor que os dois anteriores.

Definição que depende de julgamento. "Lead qualificado é aquele com potencial real de compra" empurra a ambiguidade adiante. Se duas pessoas podem discordar olhando o mesmo registro, a definição não está pronta.

Não recalcular o histórico. Adotar a definição nova e comparar com números antigos calculados de outro jeito produz variações que parecem resultado e são artefato. Vale refazer os últimos doze meses no critério novo antes de usar.

Campos obrigatórios demais. Se preencher um registro passa a exigir doze campos, o time preenche qualquer coisa para avançar — e o dado fica pior do que antes. Três ou quatro obrigatórios bem escolhidos rendem mais.

Escrever e não instrumentar. Definição que exige um campo que o CRM não tem é intenção, não regra. A parte de ajustar a ferramenta precisa acontecer na mesma semana.

Tratar como projeto de uma vez. Sem revisão periódica, o documento descreve um negócio que existia quando foi escrito.

A reunião mensal que mantém tudo funcionando

Trinta minutos, com uma pauta fixa. O formato importa porque a tendência natural é ela virar reunião de cobrança, e aí as pessoas param de trazer os números ruins.

A pauta, em quatro blocos

Os números bateram? Volume entregue por marketing e volume reconhecido por vendas, lado a lado. Se divergirem, a pergunta é onde — não de quem é a culpa.

O que foi devolvido, e por quê. As oportunidades recusadas, agrupadas por motivo. Um motivo dominante é informação sobre a entrega, não sobre a competência de quem entregou.

O prazo de contato foi cumprido? O compromisso mais fácil de medir e o mais frequentemente descumprido. Se não foi, a causa costuma ser capacidade — o que é uma conversa sobre dimensionamento, não sobre disciplina.

Alguma definição gerou dúvida? Casos em que alguém não soube classificar. Cada um é um ponto a esclarecer no documento.

O que não entra na pauta

Meta. Discutir se o volume foi suficiente transforma a reunião em negociação e faz os dois lados chegarem defensivos. A conversa sobre meta existe e deve ser separada — inclusive em outro dia.

Um sinal de que está funcionando

Quando alguém traz espontaneamente um caso em que a própria área errou na classificação. Isso só acontece quando a reunião não pune — e é o momento em que ela deixa de ser prestação de contas e passa a ser manutenção conjunta de um instrumento que as duas áreas usam.

Os cinco campos que o acordo exige

Nada disso funciona sem alguns campos que muita operação não tem:

CampoPara quêFormato
Data de entrada em cada estágioMedir ciclo e tempo por etapaAutomático
Motivo de perdaEntender o que derrubaLista fechada
Motivo de devoluçãoCorrigir a entrega de marketingLista fechada
Origem, todos os toquesAtribuição sem discussãoEstruturado
Contato vinculado à contaContar por empresa, não por pessoaRelação obrigatória

Duas observações. Lista fechada em vez de texto livre é o que distingue um campo analisável de um campo decorativo — "não tinha fit" não ensina nada. E contato vinculado à conta é o pré-requisito de praticamente tudo em B2B: sem ele, você conta pessoas quando deveria contar empresas.

O que muda em operação baseada em contas

Em ABM, a unidade de contagem deixa de ser o contato e passa a ser a conta — e isso torna as definições mais fáceis de acordar, não mais difíceis.

Três definições que substituem as tradicionais:

Conta alcançada. Ao menos uma pessoa da empresa teve contato registrado com algum material. É objetivo e verificável.

Conta engajada. Um limiar definido de pessoas distintas com interação em um período. Costuma ser o indicador mais preditivo do funil inteiro.

Conta em avaliação. Houve conversa comercial registrada com alguém da conta.

A vantagem dessas três é que nenhuma depende de julgamento sobre qualidade — são fatos observáveis. Isso remove a fonte principal de discordância, que é marketing e vendas discordando sobre se um lead era bom.

Duas semanas até o acordo escrito

  1. Dias 1 e 2. Extraia do CRM os números dos últimos doze meses pelos critérios de cada área, separadamente. Prepare a comparação lado a lado.
  2. Dia 3. Meio dia com as duas áreas. Comece mostrando a divergência, não propondo definição.
  3. Dia 3, segunda metade. Redija os cinco termos ao vivo, com critério verificável para cada um.
  4. Dias 4 e 5. Teste as definições em cinquenta registros reais. Onde duas pessoas classificarem diferente, a definição ainda está vaga.
  5. Semana 2. Ajuste os campos do CRM: listas fechadas, obrigatoriedade, vínculo com conta.
  6. Fim da semana 2. Defina o dono, agende a revisão mensal, e recalcule o histórico com o novo critério para ter linha de base.

O passo 4 é o que a maioria pula e o que determina se o documento funciona. Definição que parece clara na reunião frequentemente se revela ambígua no primeiro registro difícil — e é melhor descobrir isso em cinquenta casos controlados do que na reunião de resultado do trimestre.

Perguntas frequentes

Por que os números de marketing e vendas nunca batem?

Porque as áreas contam coisas diferentes com o mesmo nome. Cinco termos concentram a divergência: oportunidade, conta trabalhada, origem, negócio perdido e ciclo de vendas. Cada um tem uma definição implícita em cada área, e nenhuma está escrita.

Como escrever uma definição que não gera dúvida?

Com critério verificável, não com adjetivo. "Lead qualificado é aquele com potencial real" empurra a ambiguidade adiante. O teste: duas pessoas olhando o mesmo registro chegariam à mesma classificação? Se não, ainda está vaga.

O que precisa estar no acordo além das definições?

Quatro compromissos operacionais: volume que marketing entrega, prazo em que vendas faz o primeiro contato, número de tentativas antes de descartar, e devolução com motivo em lista fechada. O último é o que fecha o circuito e permite a marketing corrigir.

Definições compartilhadas resolvem o conflito entre as áreas?

Resolvem a discussão factual — quantos foram, o que conta, de onde vieram. Não resolvem a divergência de interesse, que vem de as áreas serem medidas por coisas diferentes. Isso só se resolve com indicador compartilhado, que é decisão de liderança.

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